quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

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sábado, 1 de novembro de 2014

De Vhs

para todos.

Eu sou um VHS, ou mais precisamente, um tocador de VHS,  aquele que reproduz a mídia VHS. Eu estou num local escuro, com um cheiro de cadáver, há tempos imemoriáveis, provavelmente encontro-me numa caixa, em algum porão, abandonado. Acompanham-me bravamente três fitas magnéticas, um livro e uma vitrola que parou de funcionar, ou seja, morreu...

Enfim, vim por este meio dizer-lhes minha história, uma carta aberta ao mundo! Dito minha palavras à máquina de escrever que está numa outra caixa, se caso apareça algum erro de português, ou algo do tipo, foi problema de comunicação entre eu e a máquina de escrever. Por que digo minha história? Bom, eu acho que o desejo que se faz antes do fim é sempre deixar algum registro das experiências vividas para as futuras gerações, ao mesmo tempo em que posso ensinar alguma coisa para a nova geração, neste caso os DVDs.

Antes de contar a minha história, gostaria de pedir, mesmo que de maneira hipócrita, pois fui feito para acabar com a Betamax e nós, VHS, conseguimos, que a nova geração não fosse tão maldosa com os objetos velhos, nós não somos inúteis, ou sucata, ou obsoletos, temos história, experiências valiosas, enfim.

Meu pai, ou pais, foi a JVC uma empresa de tecnologia japonesa, eu fui concebido junto com a mãe Ford nas linhas de produção.  Minha concepção teve como objetivo, assim como a concepção de todos meus irmãos, foi acabar com a Betamax da Sony, reproduzir a mídia e entreter os consumidores e que meus pais lucrassem comigo. Posso dizer que tive sucesso.

Meu primeiro dono foi uma locadora de VHS. Eles me colocavam num canto da loja, onde havia uma televisão passando as novidades de Hollywood. Ah, aquele tempo, anos 80, vi tanto filme bom com os ditos Brucutus do cinema. Arnold Schawz – droga, não lembro como se escrevia o nome dele, enfim, Arnold em Comando para Matar , Stallone em Rambo e Rocky, Bruce Willis em Duro de Matar, MacGyver, Mr T, e as vezes passam uns filmes do grandioso Clint Eastwood. Lembro-me da trilogia dos dólares e o filme Dirty Harry... Claro, todos dublados, “Vá em frente, faça meu dia”. Eu conversava com as fitas que passavam por mim sobre o filme, era como uma transa, e elas me diziam coisas exclusivas, pois as fitas brasileiras, copiavam o que a fita molde dizia e a fita molde conversava com o rolo de filme.  O rolo de filme sabia de tudo, de curiosidades, de que o Stallone quebrou vários costelas em Rambo, de como filmaram os efeitos especiais de Exterminador do Futuro 2, eram dias lindos, com fitas jovens, assim como eu.

Um dia trocaram o tocador de VHS, ou seja, me substituíram por um mais novo, eram os anos 90 já, e o meu segundo dono foi um funcionário da loja, que, por acaso, era um cinéfilo. Acabou-se o tempo de Hollywood, Warriors, Goonies, Caça-Fantasma, Feitiço de Áquila, Lagoa Azul! Nossa como eu me lembro de Lagoa Azul, repetiu muitas vezes a fita em mim, era quase uma namorada essa fita.
Eu tive que deixar de lado esse tempo, e passei a conversar com fitas mais sérias, mais estranhas, algumas até com outra língua, foi um tempo mais maduro eu acho. Na casa desse funcionário da locadora, eu vi vários filmes Cult, Trash, Franceses, e claro Pornochanchadas.

Vi tantas coisas diferentes, filmes do Godard - aprendi o que era Jump-Cut da fonte -, Glauber Rocha, Stanley Kubrick, O Gabinete do Dr. Caligari, Drácula, Nosferatu, , Akira Kurosawa, Mojica Marins que era Zé do Caixão, Hitcock e Neville de Almeida: o rei da pornochanchada.

Acho que durante essa época vi alguns dos piores e melhores filmes da minha vida, talvez o mais marcante fora Sete Gatinhos do Neville de Almeida. Uma adaptação espetacular da peça do Sr. Nelson Rodrigues. O filme é uma grande obra dramatúrgica, com belíssimas atuações do Lima Duarte, Ary Fontora, nos descasos cariocas de putaria, pobreza, machismo, entretanto como material pornográfico  é desestimulante. Digamos que as mulheres e os homens eram completamente peludos. Não que um pelo ali, acolá fosse ruim, mas é tanto e as mulheres nem eram tão bonitas, para minha surpresa a Regina Cazé atua em cenas de sexo. Sua participação foi essencial numa das cenas mais impressionantes do cinema nacional. Pergunto como uma mulher atua uma personagem que corre numa piscina nua perseguida por um deputado gritando: “Vo te cumê!” num filme pode hoje ser uma pessoa que trabalha, teoricamente, numa emissora conservadora! Ou é esse conservadorismo dessa emissora é lenço pra subversão , ou é cara de pau mesmo.

Ele me deu para uma família, seus vizinhos, pois tinha comprado um VHS mais novo e, provavelmente, não melhor do que eu.

 Essa família me colocou no meio da sala, como um altar. Um altar do entretenimento, não era mais da arte, nem dos brucutus de Hollywood, mas sim do entretenimento infantil.
Repetiu infinitamente Rei Leão , O Ratinho Detetive, Os Telettubies... Como eu odeio os Telettubies aquelas criaturas deformes humanoides, repetecos até o fim, e as crianças adorando. As vezes, achava que riam de mim, mas isso seria impossível, visto que não tinham consciência da minha consciência, alias talvez nem sabiam que outros tinham consciência, enfim, foi a época mais estressando e irritante da minha vida.

A única coisa de bom que passava por mim eram os filmes pornográficos do paizão da família.  A mulher saia com os filhos e ficava lá no sofá. O Homem peludo, de barriga, pênis pequeno, coxas largas, pneus e estrias, assistindo aos homens fortes, depilados, transando furiosamente com mulheres fabricadas, botox, silicone. Era pitoresco, mas, na falta, qualquer coisa daria pro gasto.  Passou-se anos, a mesma rotina, os mesmos filmes, o mesmo pornô, entretanto um dia fatídico, lembro exatamente,  Dia 23 de Julho de 1999 às 14 horas. Os filhos do casal cresceram, um jovem forte, uma jovial menina e a caçulinha, pequetucha e desajeitada.

Corria com seu copo de água, o trajeto, cozinha para o quarto, servir chá para as bonecas. Quando olhei para a menina a sua velocidade era maior do que ela podia continuar se equilibrando, um tropeço era iminente, tropeçou e o copo escapuliu. Cheio de líquido rodando na velocidade satisfatória para impedir que o liquido saísse. Bateu na mesa onde eu estava, o altar sagrado, quebrou em milhares da cacos e o liquido derramou-se sobre mim.

Passei um ano sem acordar.

2000 acordei depois da virada do milênio.  Quando acordei, senti que todo o meu sistema estava danificado, as cores agora seriam preto e branco. Queria alguém pra reclamar, porém quando acordei, estava numa mala.

Depois de alguns dias confinado abriram a mala e logo vi meus novos donos. Um casal de velhos. Ah , um casal de velhos,  sim um casal de velhos, a velha carola, submissa e o velho esperto, grosso.  Fui colocado na sala deles, uma sala recheada de fotos de netos, filhos, cachorros dos netos, cachorros dos amigos dos amigos dos netos. Quanto mais família, mais conforto, mais realização pessoal a velha sentia. Uma enquanto via a televisão falou para seu marido “Olha quanta gente seu Éverton, gente que eu e você colocamu no mundo”.  Lembro dos reclames dos filhos em discussões regadas a cigarro em que apontavam o “amor” da velha.

Quanto mais filhos, mais gente pra trabalhar pra ela descansar.

Demoraram muito para assistir algo em mim, não sabiam mexer. Só quando um neto, lá por 2003, os mostrou como funcionava. Nunca vi tanta missa na vida, documentário religioso  e filme do Roberto Carlos. Já estava com 30 anos, de 1973 à 2003. Para um VHS ultrapassei a expectativa de vida, na verdade, vivi o dobro.

Ninguém me substitui durante esse tempo todo como fora previsto pelos meus pais. Eles também provavelmente já foram substituídos.

Então deves perguntar, estás ai por  que então, nessa caixa escuta? Respondo-lhes que sim fui trocado. Um DVD da Samsung e fui para o porão. Junto com todas as coisas que o casal teve coragem de despejar. Objetos do passado. Um museu.

Demorei pra me acostumar com a lentidão, o mofo, a poeira. Meus amigos raquíticos, doentes, gagás, velhos. Não temos mais assunto, foi tanto tempo que discorremos sobre a vida de todos que ainda estão lúcidos. Todas as piadas, as nostalgias, os sentimentos, as fofocas. O tédio é permanente. Tédio, tédio, tédio. Eu não aguento. O que vos escrevo já fora conversado mais de cem vezes, repito pra mim mesmo pra não esquecer quem sou. Estou a tanto tempo jogado aqui. Esses velhos devem ter morrido e os ossos deles devem estar compartilhando o mesmo ar que eu.

Desgraçados, família desgraçada, nem se importa com os velhinhos, morreram e ninguém se importou. Eles não podem ter simplesmente esquecido, faz muito tempo, muito. Eles até já devem estar velhos e com ossos no chão.

Espero ainda o tataraneto do seu Éverton pra me salvar aqui. Ou qualquer coisa, ser, robô, só quero não ter mais tédio! Juro que alguém só poderia vir aqui pra quebrar meu circuito pra eu descansar de uma vez! Nem sei que ano é mais, será que foram só alguns anos? Acho que foi mais, estou aqui há tanto tempo, tanto, tanto...

Me perdoem pelo meu acesso de raiva, iria dizer algo importante. Há era sobre minha reflexão. Nesse tempo refleti tanto, a reflexão me levou somente a angústia e o arrependimento.  Vejam, meu propósito fora substituir o Betamax, minha vida viveu para esse objetivo, depois de mim outro objeto teve o mesmo propósito, que logo será substituído de novo e de novo e de novo.

Amontoados de inúteis.

Ultrapassados.

Ah droga, que coceira, tem uma formiga aqui, voltando ao assunto é... Quem, quem define isso? Por que deve se trocar? Pra quê isso tudo? As respostas estavam todas nos filmes que passaram pelas minhas entranhas.

Minha existência é o reflexo dos seres que me criariam. Lutam para sobrepor-se ao outro e sair ganhando, sem sequer perguntar ao que veio antes, o que viveu, como viveu... Não, é melhor só progredir. Quem estiver no caminho da produção vai ser jogado fora.

Somos aqui uma favela, lixo, assim como eles são lixos humanos. Os melhores aparelhos, os “melhores” humanos sair na frente. Uma corrida que não tem a mesma linha de partida, e vários não tem pernas.

Meus companheiros Betamax, me perdoem, eu vim, fiz e nunca perguntei.

O que eu fiz de diferente? Fui mais barato? Realmente importava a qualidade que eu trazia se a função que fazíamos era a mesma? Por que nós não nos rebelamos, por que não fugimos, por que não nos ajudamos, podíamos ter se ajuntado, se equipado, se consertado.

Nascemos correndo e morremos correndo. Quem é que controla a corrida, quais são as regras, a quanto tempo o vencedor está lá? Bem distante, além do horizonte? Por que não sair dela?

Sou um supérfluo. Assim como todos serão.

Espero que quando eu morrer, o que sobrar de mim seja reciclado e que eu possa ajudar, quem sabe esses restos de códigos analógicos de pensamento sejam espalhados através do meu plástico? Espero ainda a salvação, mas não escuto mais um barulho, parece que abandonaram a casa, nem sei  quanto tempo passou desde que estou aqui. Talvez um dia me salvem ou me matem.

Tudo virará lixo um dia, e somente o lixo haverá.

Resta-me a esperança e , sobra, eu, o lixo.

terça-feira, 1 de abril de 2014

Alberto Roberto

Numa quarta-feira de abril, Alberto Roberto acordou sabendo que iria morrer, que naquele dia em algum instante ele perdia suas capacidades vitais e estaria num necrotério, ou hospital. Provavelmente seria, também, sua última relação de serviço contratual, já que o defunto, de certa, através dos anos pagou com seus impostos para algum médico legista para atender no serviço após a morte. Roberto soube da sua morte naquele dia, não foi ameaçado, nem tinha doença crônica, mesmo sendo fumante e consumidor de informações inúteis, algo veio à mente dele e lhe disse: “Roberto, hoje, morrerás”.  E assim Roberto morrerá logo.

Roberto desesperado pensou nas maneiras de evitar sua morte, mas antes de poder prosseguir com seus planos, decidiu ligar para o trabalho e avisar que não podia ir, pois estava doente. É claro Roberto, muito exemplar mentir, invés de dizer-lhes a verdade, tanto que a verdade poderia deixá-lo mais próximo da morte, poderiam chamá-lo de louco, se chamassem o sanatório e no sanatório poderia ter alguém realmente louco que poderia matá-lo.

Roberto pensou. Roberto pela primeira vez na vida pensou. Pensou e pensou. Pensou para si mesmo: O que eu faço? Será que eu fico em casa? Ou será que eu saio de casa? Na rua posso ser atropelado, posso levar um tiro, um bueiro pode explodir na minha cara, posso tropeçar no meio-fio e quebrar a cabeça, são tantas coisas! Aqui em casa podem invadir, mas acho que só isso.  Ah droga! Tem o chuveiro elétrico que tava saindo faísca desde semana passada e... aquela comida estragada que eu comi ontem? Será que vai me fazer algum mal? A rede elétrica isso!

Roberto retirou a rede elétrica de casa, restou a ele, a mobília, o chão, as panelas e o ecossistema de insetos, bactérias, pequenos mamíferos que vivem na casa delem.

Roberto, então se lembrou da infância do que lhe fazia seguro, fez, portanto, um forte com almofadas do seu sofá que conseguiu da ex-mulher, alias eu cheguei a comentar que Roberto tem quarenta anos? Não? Bom, agora vocês sabem.  Roberto emplumou-se no seu forte apache do sofá, preparando-se contra tudo e todos, carregando uma faca.

Como eu vou dizer pra alguém isso? Eu estou sozinho...  Pensou para si mesmo.  Os vizinhos não vão querer se incomodar, meus parentes moram em Jacaringuetá, o governo vai achar um desperdício de verba. Não me resta nada.

A morte tão esmagadoramente simples e misteriosa. Roberto está só esperando o tempo passar, os minutos correm, o suor desce de seus braços peludos e flácidos. Passa-se a hora do almoço, Roberto não come. Passa-se à tarde, Roberto nem se importa com o por do sol.  A noite chega e ainda não morreu. Os minutos para ele parecem dias colossais. Para nós já passaram e para barata que ele pisou séculos. Roberto está assustado, na posição fetal, ele sente a frieza da noite, o toque macabro.  Chegam às onze horas, Roberto, Roberto, pensa, quero trabalhar, quero trabalhar, quero viver, quero transar, quero tudo, quero comer, mas tenho medo, muito medo de sair.

Muito medo.

 Muito.

Roberto vê uma silhueta. Seu coração pulsa mais rápido e seus pelos se arrepiam. A silhueta se revela na forma de um morcego, Roberto, pensa que aquilo vai o matar, vai lhe morder, passar raiva e consequentemente vai morrer.


Raiva, raiva sobe a Roberto, porque não enchi de porrada aquele cara na guethe uma vez? Que roubou meu lugar no ônibus. Por quê? Ou quando a cabeça de sopa de osso do Claúdio foi lá e estragou minha planilha do Excel. Por que eu não peguei minha mão e trucidei a cabeça dele?

Roberto ficou lá, choramingando no sofá, apavorado com tudo e todos. Pensava consigo mesmo: o que resta nessa casa que pode me matar? Um inseto venenoso? Não havia dedetizado o local. Um assaltante ou um assassino? Impossível, sua porta estava trancada e o alarme ligado. O que, o que ainda poderia mata-lo? Então viu a faca em sua mão, afiada e mortífera faca, e chegou a resposta: apenas ele poderia mata-lo. Para estar seguro da morte teria de matar a si mesmo, pois somente sua própria covardia e inércia paralítica que poderiam matá-lo. Enfiou a faca no abdômen e deixou o sangue jorrar, e assim ele morreu. *

* Final adaptado dum amigo meu, conto original era pra inscrever vários finais diferentes; Esse foi o melhor. É de Manuel Flores o Final.


terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Leitor: Você acha que eu sou arrogante?

Ironicamente és tu,
o mais sutil,
como o peso dum tumor.

Incógnito no
meio das informações.
Preciso, inscrito,
Transcrito, descrito,
Detestado!

De todo o espectro
das cores do subjetivo,
você é aquela
que transita,
entre todas.

Mas, você, ó, você
meu grande amor,
é a arma mais sutil;
 a arrogância.

Imito o kafka trocando um pé por uma mão com um comerciante enquanto ando às cegas.

Existe certo sentimento kafkiano,
Naquele caminhar incerto ao vento,
Tudo vai ser sempre igual no ano,
Esqueça, pois é tudo torto.

"Mas, deixa pra lá...
O mar que vai leva...
O dia que vai passsa...
A dor que vai cede...
A vida vai que traça,
e sei que tu pede
por um pouco de
controle."

Existe um sentimento simulacriano,
Naquele jogo de cartas do nosso bar,
Limpa-se as palavras com um pano,
e vai se esquecendo como caminhar.

Mas, pra que?
Se amanhã às 3 da tarde
tem na TV alguém
dizendo da salvação?
E na iternet
se tenho um problema
eu procuro e acho
a solução,
realidade pra que?
Se esse solipsisimo,
ismo, essas idéias irreias
e etcé-tr-ícás.
Os impulsos elétricos
vem e eu fico PARADO!

Existe um certo sentimento sofista,
Naquele troca com papéis de dinheiro,
Joga-se a lógica por mercadoria,
E não se distraia que cairá no bueiro.

"Mas, deixa pra lá...
O mar que vai leva...
O dia que vai passsa...
A dor que vai cede...
A vida vai que traça,
e sei que tu pede
por um pouco de
controle."

Existe um sentimento simulacriano,
Naquele jogo de cartas do nosso bar,
Limpa-se as palavras com um pano,
e vai se esquecendo como caminhar.