Dois viajantes , por infortúnio, ou muito azar, estavam em Bom-Fim. A cidade "pacata" da serra, completamente isolada do resto do mundo, por assim dizer, vive sua própria mitologia, as histórias baseiam se em momentos fúteis do cotidiano, um apunhado de fofocas, mitos e medos.
Pedro e Marco localizavam-se no bar Dom Pedro, ao balcão bebendo cerveja enquanto trocavam piadas. Já era o terceiro dia que estavam na cidade, como sempre estava lotado o pequeno estabelecimento. Vários homens acima de 40 anos trocando piadas, frustrações, mágoas, saudades de esposas já defuntas. Mesmo com todo esse quadro emocional, que pairava como um grande monólito preto no meio da sala, a atenção de Marco fora atraída por um canto, havia uma mesa, uma cadeira, vazia. Haviam 2 homens de pé, próximos da cadeira, ousavam chegar perto, desviavam como se a mobília ira atacar-lhes. Era o segundo dia que Marco notara isto, mas dessa vez, tinha certeza, havia algo errado naquela cadeira. Pedro notou que a risada de seu amigo encurtara, ou seja, sua atenção à bobagem tinha diminuído, conhecia seu amigo muito bem, sabia quando algo lhe atenção. Pedro sem hesitar perguntou - " O que é que tu tá olhando? " Marco voltou os olhos para Pedro e respondeu - " Vê aquela cadeira no canto? Por que ninguém senta nela? "
Antes o quase mudo barman, alias o bar, mesmo tendo uma decoração antiga e bela era relativamente tosco, o impressionante era o preço do pastel de carne, um real, muitos duvidavam se o que era servido era carne, todavia ninguém podia reclamar da deliciosa gordura de seu pastel. Como ia dizendo, o barman, dono do bar, prontamente disse a eles - " Essa cadeira... Essa cadeira tem história. Meu tataravô comprou essa cadeira simples de madeira dum brechó no Rio de Janeiro, com o documento que esta cadeira estava em um dos barcos quando a corte portuguesa veio para cá. Desde lá a cadeira trazia má sorte, inúmeras pessoas sentaram nela e dias, ou semanas depois encontravam um terrível destino. É uma puta cadeira. O velho Adauto sentou nela... Morreu dias depois. Bom, mas a parte mais fudida é que meu tataravô matou sua mulher ali, e depois seu filho, matou ele, logo depois o irmão, meu avô, a cadeira é manchada pelo sangue da minha família. "
Pedro e Marco mudaram completamente o tom, o teor alcoólico no sangue parecia sumido. Marco então abriu a boca e disse - " Meu deus, que desgraça! Essa cadeira deveria ser queimada, colocada pra fora, dada à prisão pra matar os ladrões que sentarem lá. Por que, por que você não, não, não colocou ela fora, ou desfez-se dela?" Pedro logo falou baixinho - " Não seja grosso com o homem, para de ser idiota... " O barman com um sorriso no rosto - " As pessoas gostam de histórias. Isso traz atenção pro bar. Mas sabe, talvez sejam só coincidências... Deixem a cadeira E se não forem coincidências, é arriscado tocá-la. "

Os dois viajantes pagaram a conta, saíram do bar, deram adeus ao servente e foram ao hotel. Hotel Bom-Fim Nº 3, praticamente um portal do purgatório, o aroma de cigarra contamina todo e qualquer recinto do edifício. O mau-humor dos atendentes e camareiras é quase como o ódio do diabo. Os hóspedes deste hotel são extremamente bizarros, poucos viajantes e muitos sub-moradores de Bom-Fim. Em épocas passadas, o hotel era cheio, rico, feliz, transbordando desejos magnatas, depois de uma série de assassinatos dentro do hotel e a mudança de algumas empresas multi-destruidoras de sub-países, a cidade, o hotel, as pessoas, perderam o brilho. Todos de uma vez só.
Os dois discutiram a noite inteira sobre o que fazer com a maldita cadeira. Depois de muito medo, suspeitas, análises, decidiram comover algumas pessoas pra botar um fim à cadeira, queimá-la. Este seria o último dia deles na cidade, esperavam a chegada doutro amigo que tinha parentes numa cidade próxima, estavam numa viagem pelas curvas de serra. Noutro dia, foram de novo ao bar, como fizeram desde que chegaram, começaram um alvoroço, Marco ficou encima duma mesa e proclamou " Moradores de Bom-Fim eu proponho de destruir essa maldita cadeira!" todos no bar saudaram e estavam cansados da "cadeira" , levantaram seus garfos, copos, pastéis, em uníssono clamor " Queimem a cadeira!", o dono do bar, o barman, aclamava " Não precisa, mas se quiserem queimar faça rápido, tirem essa merda logo daqui então."
Um grupo de homens levou para calçada, encheu a de álcool que tinha na cozinha e atearam fogo. Todos comemoravam com medo. Os estouros da madeira assustavam todos, pulavam pra trás. Amarante viu a cena de longe. Notou duas faces diferentes do bar, alias eram sempre os mesmos que iam ao bar, sabia já quem causara isto. Aproximou-se lentamente da cena, sem querer chamar atenção, escorregou entre os quarentões e chegou as dois viajantes. Disse a eles " Vão embora daqui, vão se dar mal, essa cidade é insana. Fizeram muita confusão, meu nome é Amarante" Antes que pudessem responder ele já fugira e caminhou para outra direção, enquanto viam Amarante cruzar a esquina o barman com uma mala, dá um encontrão nele, Amarante caí, o barman olha, mas não ajuda e continua a correr.
Depois da cadeira estar queimada e todo voltarem pro bar, o estagiário estava no balcão, já avisando que o dono saiu de férias, sua mãe tinha ficado doente partiu rapidamente para Porto Alegre, onde ela estava no hospital, Pedro e Marco estavam sentados na laje da calçada olhando para as cinzas da cadeira, só sobrou o caixote do assento, Marco aproximou-se e pegou o caixote, e perguntou para Pedro - " Por que o barman queria fugir ? " Pedro responde " Acho que tem algo sobre o caixote" Eles abriram o caixote e havia uma caveira com um colar. Junto a isto Amarante entrega a eles uma carta. Estava escrito " Jogue fora a caveira da minha esposa e mate aqueles dois viajantes."
Conto Por Gabriel Zaffari e Ilustração de Rafael Mafuz